PELAS PAREDES
 Ela me olha, lá, a lagartixa Encolhida na minha parede Olha, imóvel, presa Presa de seu predador
A lagartixa, lixa fria Pele esquisita, frita A me olhar, solta Presa à tinta do meu lar
Ela e eu, sozinhos Eu e ela, vizinhos Ela e eu, otários Eu e ela, em nossos calvários
Na terça-feira nada santa Dia-a-dia, senta e levanta Minha alma pendurada na parede Gentilmente cede à minha sede
Sede de líquido, físico Sede de santo, ríspido Sede de alma, tântrico Sede de tese, tísico
Cof, cof, cof Desculpe Vou me limpar E a lagartixa... Ela, e só ela A mirar Pou! Tiro Morri
Escrito por Alexandre Gaspari às 00h01
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CRIADOR E CRIATURA?

Não resisti e tirei uma foto na Sears Tower, em Chicago, ao lado do cara. Não é que teve uma mulher que pediu meu autógrafo?????
Escrito por Alexandre Gaspari às 09h52
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15

1 + 5 = 6
1 - 5 = -4
1 x 5 = 5
1 / 5 = 0,2
15 do 10 dá -5
Menos cinco mais cinco dá zero
Zero de atenção e de respeito
Zero de retorno e de saudade
Zero vezes zero igual a zero menos que zero
Menos que 15
Mas que nada
15 + 6 = 21
21 do 4 dá Tiradentes
Tiradentes de feriado e praia
De boate e sem saia
De sanha e cama
Mais que 15
Menos que trama
15 + 5 = 20
2 + 0 = 2
Dois menos um dá um
Um deu no pé
O outro ficou
Um apareceu
O outro se dobrou
Um mais um igual ao quadrado
Raiz de 15
Longe e ao lado
O Quinze, de 1930
1 + 9 + 3 + 0 = 13
1+ 3 = 4
Quatro dias do mês seis
Quatro horas do dia D
De quatro, arrasto
Em duas levanto
Uma vez em três
Dia 15
Mês talvez
Insensatez
Escrito por Alexandre Gaspari às 15h32
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EXPLICAÇÃO COM CAMARÃO

Juro que não pedi. Não pedi mesmo. Não, não fui eu. Não pedi nada. Sou humilde, sou do povo – é o que estou tentando parecer, não é? –, mas sou orgulhoso. Até estou precisando, mas... não, pedir, não. Não faria isso. Não é da minha índole. Se bem que... qual índole? Esqueça, não pedi. Não queria. Não.
Quando vi aquele casal, aqueles sorrisos, aquela filha crescida e verborrágica, camiseta no melhor estilo cara-pintada da década de 90... não pedi, mas eles vieram! Apertaram minhas mãos, sorriram, são importantes. O casal, ambos fora de forma – ou melhor, saídos de uma fôrma redonda –, surgiu ali, sorridente. Não pedi, juro! Eles vieram. Sorrindo. Rindo. Indo. In. Out.
Agora dizem que eu pedi. Que alguém ligou pedindo. Que alguém que não quer que alguém ganhe a parada telefonou pedindo para que eles viessem apertar minhas mãos. Não fui eu, não fui eu, não fui eu. Foi alguém. Alguém que conheço, reconheço, mas que não me reconheço mais nesse alguém. Sou outro agora. Sou fora. Forasteiro em um jogo em que sempre acusei e agora sou alvo. Calvo.
Bem que percebi que o casal roliço me era familiar... mas não me familiarizei tanto com os dois para saber o que andaram fazendo por aí. Tudo por um real. Apoio por um real. Aperto por um real. Apago por um real. Apago aquele dia da memória de quem me viu por um real. Juro. Não fui. Não era eu. Não era real.
Imagens de nada valem. Não foi bem aquilo. Posso explicar. Montagem. Montaram em mim. Monte de besteiras escritas por aí. Não é verdade. Não. Não vou perder por isso. Bobagem. Sou do povo. Sou um ovo. Um ovo!!!! Um ogro. Perdido ali. Fotografado. Registrado. Aquele sorriso. E o casal rindo... a filha pré-histórica prestes a se tornar pré-histérica. Não vi. Não fui eu.
Juro que não fui eu. Juro que vou ganhar. Juro que vou me salvar. Juro. Furo. Que furo. Furou...
Escrito por Alexandre Gaspari às 17h10
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BREVES COMENTÁRIOS SOBRE UM DEBATE SEM SEU ALVO

Foi imperdível o debate realizado pela Rede Globo na quinta-feira (28/9), três dias antes do primeiro turno das eleições deste ano. Foi tão imperdível que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva deve estar se lamentando até agora de não ter ido. Podia ter saído por cima, bem na foto, com cara de coitado, de enganado, de passado para trás pelos "aloprados" do PT. Teria quebrado sem fazer muita força a fúria histérica de HH, a pretensão insossa de Alckmin e a revolução doce-quase-enjoativa de Cristovam. Podia ter dado uma pequena satisfação a seus eleitores sobre os escândalos que abalaram seus quatro anos de governo. Com seu poder de oratória, teria convencido, porque quem votou em Lula há quatro anos ainda prefere acreditar nele, mesmo quando tudo mostra que ele está mentindo. Ele, porém, preferiu um palanque em São Bernardo do Campo com a presença de alguns dos acusados no escândalo do Mensalão. Em troca, vai ganhar um segundo turno.
Mas vamos falar dos presentes, que deram um show de democracia e de respeito, apesar do resto
- Cristovam e Alckmin deviam formar uma chapa e se candidatar em 2010. Com tanta delicadeza, educação, pontos em comum, quase parentes, estão fazendo o que separados?
- HH me surpreendeu. Depois dos seus destemperos durante as entrevistas que concedeu por aí – chamou até a Fátima Bernardes de "meu amor", para não chamá-la de "sua filha da puta" -, a justiceira das Alagoas foi até comedida em seus ataques. Chorou e tudo!
- O Alckmin... bem, o Alckmin sai muito bem na foto, mas se tem a nítida impressão de que a imagem passou no Photoshop umas 580 vezes para ele ficar daquele jeito. É um comedimento em excesso. Um discurso pronto, comprado no camelô da esquina por "5 real". Coito interrompido.
- O melhor do debate foi o Bonner. Meu Deus, o cara é um tesão! Nunca tinha reparado que por trás daquele bom-moço do Jornal Nacional existe mesmo um bom-moço! Pediu desculpas à HH por duas vezes por ter de interrompê-la, mesmo sendo essa a obrigação dele ali! O homem deve ser uma loucura na cama! É por isso que HH quis trucidar a Fátima na entrevista do JN: deve morrer de inveja dela!!!!
- Apesar do enjôo, voto no Cristovam!!!! Eu também quero o segundo turno!!!!!
Escrito por Alexandre Gaspari às 15h26
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PERDÃO

Mil perdões, mas hoje estou puro lamento. Dor em forma de carne, tristeza em forma de sorriso amarelo que tenta se tornar um sol na minha cara mas que vira um tubinho de Epocler – amarelo e ruim pra caralho! Não está dando, não estou dando, não dá. Toalha jogada hoje.
Hoje a pressão está demais, a minha pressão, o peso da vida. É nome sujo, é casa suja, é mesa suja, é jogo sujo, é Congresso sujo, muita sujeira pra limpar em tão pouco tempo que o tempo que resta não me parece suficiente. Cabeça baixa com a cruz nas costas.
É processo, é progresso, é recesso, é sucesso, é interesse, é suspense, é tendência, é aparência, é distância, é segredo, é divórcio, é consórcio, é ócio, é ostracismo, é maniqueísmo, é casuísmo, é ter que definir tudo em um mesmo momento no momento em que tudo se quer definido, mas não consigo. Incapacidade.
Minha proclamada auto-suficiência me deixa na mão, na punheta, na trombeta, na receita, não satisfaz. O mau-caratismo ronda e me dá trabalho, trabalho, trabalho, peso, dor, cansaço, despeito, ódio, vontade de pular, de mandar pra puta que o pariu, pariu sem saber que era puta, nem que o que estava parindo podia ser chamado de gente. Não pode ser. Não é.
Desculpe-me, mas hoje está foda sem prazer, fogo sem lamber, fuga sem verter, falha sem querer, feto sem nascer. É hoje o dia em que o dia podia ser logo noite que seria indiferente, porque o Epocler é ruim pra caralho a qualquer hora. É dia de chuva pesada com sol raiando e arco-íris preto e branco. É dia.
Perdão, mas não me leia hoje. Quero apenas vomitar. E sem vaso pra escorar. No chão. No meu pé. E nos seus olhos.
Escrito por Alexandre Gaspari às 17h18
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CAIXA DE MEUS RETALHOS

A caixa que me separa, me divide em mais
A nuvem corrida de um lado
O sol brotando de outro
O verde natural
O cinza concreto
Muro a me equilibrar entre tanto e tanto mais
Tanto mais tenho, mais desejo
Desejar o desejo alheio
Pilhar as vidas que passam
Acumular almas perdidas
Corda bamba, balançando de cá para lá
Estampidos da insanidade
Som da eternidade
Calmaria da imagem
Ventania de passagem
Passando de um para outro
Entre um e outro
Entre mim e mim mesmo
Entreatos e lampejos
Baixo e alto, eu no meio
Janela aqui, janela lá
Vista para a floresta e para o mar
Meio dia de sensações
Meia noite de ilusões
Metade, de quatro
A outra, errático
Frio e calor
Amor e não-amar
Conflito e paz
Guerra e mais
Minha caixa a me embalar
Nana, neném, que a cuca vem pegar...
Escrito por Alexandre Gaspari às 16h56
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QUEM LÊ?

Quem lê tanta notícia? Lula paga 900 mil Inter é campeão 22 milhões sem crédito Foguinho lança Anjos do Sol
Quem tanta notícia lê? Serra culpa migrantes Sanguessugas desviam milhões Salário tem ganho acima Sistema solar tem 12
Tanta notícia! Quem lê? Dilma fala de conquistas Heloísa chama Fátima de "meu amor" Maria Sílvia consulta, mas não preside Marília interpreta Channel
Que notícia tanto lê? Leão no Corinthians Golfinhos são estúpidos Ratos enfeiam o Congresso Gatos e gatas em Gramado
Que tanto lê notícia! Caetano e Paulinha amigos Preta é travesti que quer ser Rita Aldo apóia Nader suspeito Cabral elogia Palmeira na TV
Quem? Notícia? Lê? Tanto? Português morto em Copa Ônibus queima em Sampa Turista assaltado na Lapa Pedófilo mata nos EUA
O Sol não está mais nas bancas de revista Temos o planeta O país Os estados As 24 horas A novidade O rápido O metade de hora
Tanta notícia. Pra quê?
Escrito por Alexandre Gaspari às 22h58
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PELA MÁGICA, SEMPRE
 Quem, adulto, ainda acredita em e se encanta com mágicos de circo? Esses seres com certo charme mas que, depois de um tal de Mister M, perderam totalmente o sentido da credulidade? Alguém? Não me parece razoável. A mágica acabou, alguém fez questão de desvendá-la e, de alguma forma, destruiu-a. Ficou sem graça.
Essa saudável curiosidade humana de desvendar e descobrir mistérios que nos intrigam, mortais comuns, vem prestando serviços de alta relevância para o planeta. Foi este desejo de conhecer, de saber, de transformar fatos então metafísicos em situações corriqueiras, que tirou da aura do inatingível várias situações hoje plausíveis. Que fez com que bruxos e bruxas virassem visionários, mesmo depois de queimados na fogueira da intolerância.
Mas confesso que muitas vezes esse nosso afã de descobrir o que está por trás do inexplicável me deixa confuso e aborrecido. Hoje, além das estripulias de um mágico, queremos desvendar as mágicas da vida. E com as mesmas fórmulas cartesianas e precisas que aplicamos para esticar nossos salários – afinal, geralmente eles acabam antes do mês –, construir nossas casas e carros, ganhar ou perder calorias com aquela dieta e atingir o peso ideal.
Chegamos no tempo em que não há mais mágica em atender o telefone e perceber que quem está ligando é aquela pessoa da qual se desejava há tempos receber uma chamada – ou mesmo um cobrador indesejado. O bina nos salva disso. Não se perde mais tempo indo a um astrólogo que levará semanas traçando um mapa astral e desvendando (ou melhor, tentando desvendar) o que o futuro nos reserva. Vários sites na internet fazer isso. E nem mais o sexo precisa do trabalho de ir à rua atrás de uma paquera, um papo e uma trepada. É só se inscrever num site de relacionamento, que nos poupa desse trabalho.
Não sou saudosista, é vital a tecnologia que nos cerca. Mas nos vejo tentando encontrar soluções via chip para esferas que estão além de nossa compreensão, em vez de respeitá-las desta forma. Não há como descobrir matematicamente a verdade verdadeira de um olhar. É um mistério. Não há como calcular em uma HP o sentimento de alguém que recebe um telefonema de outro alguém que está esperando há tempos. É um mistério. Não há como entender porque nos apaixonamos por umas pessoas, e não por outras, e nem porque sofremos por amar alguém que não nos ama, enquanto não conseguimos amar alguém que nos ama. Não há fórmula nem calculadora para tudo isso.
Há alguns anos li uma matéria que dizia que a paixão durava entre 18 e 36 meses. Na época, vibrei com tal estudo científico. Hoje, porém, me arrependo amargamente de ter lido e acreditado naquilo. Porque, depois de muito pensar, descobri que não há fórmula para definir intensidade e duração de sentimento – vai além do nosso desejo cartesiano de querer descobrir muito isso. Ele é mágico. Ele dura enquanto duro. Ele se transforma. Não acaba. Ele é humano, não virtual. E somos feitos de carne, osso e vibrações, estas últimas, inexplicáveis. Não tem jeito.
Por isso, vou ser a favor da mágica sempre. Preciso dela para acreditar que as minhas histórias não vão virar uma equação de sei lá que grau. Para chegar em algum lugar espetacular e ter uma gostosa sensação me invadindo e tomando conta de mim. Isso, sim, é mágico. E, por mais que se tente, ninguém irá descobrir como acontece.
Escrito por Alexandre Gaspari às 10h11
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JUNHO, 12

Hoje é o dia dos que andam a dois
E nesse dia peço empate, sempre, nos jogos da vida
Quero que os sonhos bons sejam multiplicados, e os ruins, jogados fora, no vento
Esse vento que tem que trazer boas notícias mesmo quando venta forte
Quero que a distância física seja o menor dos males, e que a distância do amor suma
Quero que a vida seja de dois companheiros, dois cúmplices, dois parceiros
Quero o sorriso pela presença acima das lágrimas pela palavra mal-dita
Que amar seja um compromisso, não um discurso, não uma fita
Hoje é o dia do dois-a-dois, do casal, do par
Do número primo 2, que só se divide por ele mesmo e por 1
Um que sem outro, assim eu quero, não tenha o menor sentido
Um que com o um forme mais que dois, que dez, que mil, infinito
Dois em singularidade, singular plural
Plural de amor que não se foi, que partiu banal
Mas que ficou no tempo, marcado dentro
De amor que se renova sem querer morrer, mas morrendo
Hoje é o dia de dois, um-dois do seis
Dois andando por aí na fina chuva que cai aqui
Dois pensando por aí no que fazer para ser dois em sentir
Um cá, outro lá, dois a dor
Quero, sim, que seja mais que um dia
Mesmo eu sozinho aqui nesse dia 12 do 6
Mesmo eu doente por esse dia que não acaba
Mesmo eu demente pelo furacão que me marca
Mais que um dia, mais que dois dias
Mas que dez dias, mais que dois meses
Mais que cinco meses, mais que dois anos
Mais que cinco anos, mais que dez deles
Mais que sem sentido
Mais que doído
Mais que moído
Mais que vencido
Amado
E sentido
E só e somente isso.
Escrito por Alexandre Gaspari às 18h57
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ESCÂNDALO (Caetano Veloso)

Mas, doce irmã, o que você quer mais?
Eu já arranhei minha garganta toda atrás de alguma paz
Agora nada de machado e sândalo
Eu já estou são da loucura que havia em sermos nós
Também sou fã da lua sobre o mar
Todas as coisas lindas desta vida eu sempre soube amar
Não quero quebrar os bares como um vândalo
Você que traz o escândalo, irmã luz
Eu marquei demais, tô sabendo
Aprontei demais, só vendo
Mas agora faz um frio aqui
Me responda, tô sofrendo
Rompe a manhã da luz em fúria a arder
Dou gargalhada
Dou dentada na maçã da luxúria
Pra quê?
Se ninguém tem dó, ninguém entende nada
O grande escândalo sou eu
Aqui
Só
Escrito por Alexandre Gaspari às 17h15
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SOU BI?

Coluna "Gente Boa", do Joaquim Ferreira dos Santos (Jornal O Globo), desta quarta (7/6/2006)
RUMO AO HEXA
De Preta Gil, comentando entrevista de Ana Carolina na qual a cantora fala sobre sua sexualidade: "Numa boa, se ela é bi eu sou penta".
Comprei esta revista – para ser mais exato, a Veja, não lembro a data, sei que foi em 2005. Comecei a ler a matéria e parei. Posso estar enganado, mas vi ali uma boa estratégia da gravadora da Ana Carolina (que não sei qual é) de "mixar" o público da cantora. Sim, sabe-se que desde que surgiu, Ana tem fãs predominantemente do sexo feminino. E grande parte destes fãs são mulheres que gostam apenas de mulheres. Mulheres que se identificaram com o apelo homossexual da cantora – que, à época que surgiu, namorava, inclusive, sua produtora na ocasião. E isso era sabido por seus (suas) fãs.
Sinceramente, estou pouco me fodendo se a Ana Carolina é homo, uno, bi, bicha, tri, tricha, penta, hexa, hetero, trava, drag, sei lá mais o quê. Não acho que é a sexualidade de Ana que está em questão – isso diz respeito a ela, e somente a ela. O que me irritou, e ainda irrita profundamente, é a tentativa de usar um suposto "aliviador de barra" para a cantora vender mais ou não ser taxada de "cantora de sapatão". Afinal, ser bissexual, em algumas rodas, é até moda (embora para mim bissexual é gay que não tem coragem de assumir ou hetero que quer parecer moderninho), e boa parte dos homens sonha em ter duas ou mais mulheres na cama simultaneamente - se comendo, óbvio.
Sendo "bi", Ana perde a pecha de lésbica assumida e ganha um ar mais "contemporâneo". Continua alimentando a fantasia das mulheres que gostam apenas de mulheres e passa a alimentar a fantasia de homens que gostam de mulheres que transam com mulheres – embora eles tenham de gostar de uma mulher extremamente masculinizada, como é a belíssima (e isso ela é mesmo) cantora.
Enquanto isso, o hit "É isso aí" toca insistentemente em rádios, CD e DVD players e mostra que a estratégia deu certo. Hoje Ana Carolina é uma cantora de mulheres que gostam apenas de mulheres, mulheres que também gostam de mulheres, mulheres que só gostam de homens, homens que só gostam de mulheres, homens que também gostam de mulheres e homens que só gostam de homens. Bingo! Não há mais rótulos. Ela se tornou universal. E vende mais discos – e, é claro, sejamos justos, é mais pirateada também.
Pessoalmente, tive uma decepção muito grande com a cantora quando fui ao show de lançamento de seu CD "Estampado". Independente de ser um homem que gosta de homens e já gostou de mulheres um dia, eu era fã do estilo e das letras da Ana. O show foi ótimo, ela realmente é uma show-woman (ou show-bi-woman, se preferir). Mas eu e minha filha, que foi ao show comigo porque também adora a Ana, fomos até o camarim, e ela só atendeu os "globais". Minutos depois, a imensa fila – lembro-me bem, formada quase que exclusivamente por mulheres – foi dissipada por seguranças, que disseram que a cantora fora embora. Ficamos na pista.
Tudo bem, isso é um processo meu, que pretendo fazer análise para resolver. Mas eu ODEIO "É isso aí". Principalmente pelo trecho "um vendedor de flores ensina seus filhos a escolher seus amores". Se fosse o Djavan, tudo bem, a gente está acostumado. Mas a Ana? E ainda por cima aquele show de gritos guturais sem sentido, apenas pra mostrar vozeirão? Francamente!
Gostos à parte, só deixo claro que estou com Preta Gil. E que nem sempre uma boa estratégia de marketing convence a todos. Muito pelo contrário: depois da entrevista, prometi para mim mesmo NUNCA MAIS COMPRAR qualquer CD da Ana Carolina. E olha que depois de "Estampado", o último que comprei, já saíram mais alguns. Eu tô fora. Não gosto de ser enganado. Ou melhor, até gosto, mas com algum sentido. E com respeito, ao menos, à minha inteligência.
É isso aí!!!!!!!!!!
Escrito por Alexandre Gaspari às 12h58
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34
Um número como qualquer outro. Entre o 33 e o 35, par e, somando-se seus dígitos, tem-se 7.
Um número. De sapato, de prédio, de tintura para cabelo, de conta bancária, de senha.
Número de idade, de saudade, de tempo. De vontade sem número.
Já é um dia depois dos 34, e tudo parece como antes. Um ano pós-33 e mais 24 horas.
Hora de parar de rever o que já foi feito e olhar para o que vem para ser feito.
Bem-feito. Aos 34, tudo tem que ser assim. Não dá mais para errar muito.
É verdade, uma ruga a mais desde ontem, um cabelo mais branco do que parecia.
Um ano a mais, um desejo a mais, um mistério a mais, um delírio a mais, um cansaço a mais.
Por outro prisma, um ano, um desejo, um mistério, um delírio, um cansaço, tudo a menos.
A menos que se queira fazer sempre mais, e esses 34 trazem isso.
Chega de menos: menos tempo, menos amor, menos atenção, menos respeito, menos consideração.
Mais 365 dias têm de trazer mais vida. Mais vida é o que se quer. Mais acertos, menos erros.
Um número a mais com um ano a menos para frente.
Uma vontade a mais com uma ereção a menos para frente.
Um lugar a mais com uma prestação a menos pela frente.
Uma ruga a mais com uma preocupação a menos pela frente.
Chegou o 34. Menos um para o 35. Indo para o 40.
Prefiro o 7. Hora de pintá-lo.
Escrito por Alexandre Gaspari às 18h17
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INFERNO ASTRAL 2
 PENSAMENTO DO DIA (Livre adaptação sobre Paula Toller e Leoni)
Talvez você seja melhor que os outros Talvez, quem sabe, goste de mim Assim, do jeito que sou Difícil às vezes Força exagerada Mas muito mais que uma vantagem Uma sacanagem Uma viagem Uma bagagem Um arroz com feijão Sim, talvez você seja melhor que os outros Talvez não me apague como quem apaga textos Talvez sinta saudade de mim mesmo depois do fim Talvez reconheça que não existe erro de um só Talvez me deseje com tanta vontade que me lamba Engula meus líquidos sem preocupação Me dê os seus com a mesma gratidão Talvez você sinta que eu sou seu assim Sem muito esforço, sem muita força Talvez você tenha bons sonhos comigo E se ruins forem, não deixará de me amar De me bem tratar Só pelo seu mal sonhar Talvez você seja igual aos outros Talvez, quem sabe, goste de mim Mas talvez mesmo sendo igual você me traga sorrisos Justamente por ser igual, não diferente Não indiferente Não negligente Não demente Talvez você Talvez Mostre-me. Chegou a sua vez.
Escrito por Alexandre Gaspari às 02h54
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INFERNO ASTRAL

PENSAMENTO DO DIA (por Caetano Veloso):
"Respeito muito minhas lágrimas, mas ainda mais minha risada"
(OU estratégia vocabular de auto-convencimento)

Escrito por Alexandre Gaspari às 10h08
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